Não sabemos nada sobre aquilo que ainda não descobrimos
(dirão que é natural que assim seja)
Mas sabemos tudo sobre o quanto nos
apavora
E nos põe em causa, e nos desnuda
E desmistifica
Vivemos apenas uma sombra de tudo o
quanto
Podemos ainda vir a saber
Essas inconfessáveis revelações do
espírito do progresso
Trespassados apenas por clarões
súbitos de sobriedade
E relâmpagos de lucidez
Confrontados com a lâmina severa da
finitude, o seu vértice,
Ou a força abruta do nosso caráter
visceralmente ridículo
Não temos ainda tempo para nos rirmos
Somos diariamente confrontados com a
possibilidade
De uma outra vida por detrás dos muros
desta,
De todos os seus cenários de papel e
peças trágico-cómicas,
Compreendemos perfeitamente a razão de
ser das ruínas
Da impossibilidade de construirmos algo
verdadeiramente estável
E duradouro
Que surpresas a ciências nos
reservará, ou a magia negra,
Ou a noturna alquimia das artes
Apenas podemos saber que
paulatinamente erodimos
Ou que passamos todo o século
embrulhados na mentira
Que novas e terríveis verdades trará
então a locomotiva da história
Que assombrações e desmistificações
Tantas e tão severas e revolucionárias
Que nos farão sentir terrivelmente
obscenos e infantis
Patéticos enfim.
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