Não sei o que se passa com as pessoas
Elas deixaram de agredir os outros
Para se passarem a agredir a elas
próprias
Ou além de agredirem os outros
Agridem-se a elas também
E congratulam-se por falharem
Porque falhar faz parte do percurso
Mas qual percurso?
O percurso que todos os dias as leva a
falhar
E encolerizam-se, e choram, e
desesperam,
Por aquilo que acham que as vai fazer
felizes
E chegam ao fim do dia e percebem que
Uma e outra vez
Foram enganadas
E parece que não sabem fazer mais nada
Do que empanturrar o focinho de
cerveja
Ou encherem-se de livros e de teatro
Ou viverem obcecadas com aquilo com
que forram o estômago
Ou queimarem os pulmões com o fumo
denso das substâncias proibidas
Não sei o que se passa com as pessoas
Que preferem confidenciar-se junto dos
seus animais domésticos
Do que dedicar um minuto de atenção
Aos vizinhos que as cercam
E têm o universo inteiro à sua
disposição
Mas preferem gastar o seu escasso e mísero tempo
Encerradas no seu labirinto privado
Que conflui e interseta outros tantos
labirintos privados
Que formam o grotesco labirinto da
sociedade
Não sei o que se passa com as pessoas
Que irresistivelmente parecem tombar
como se estivessem
Irremediavelmente bêbadas
E se arrastam pelas suas rotinas
absurdas
Repletas de confetes em salas vazias e
cidades imaginárias
Nas cabeças desfeitas
De ambições em ruínas, sonhos
desmoronados,
E pássaros da infância em debandada
Não sei o que se passa com as pessoas
Mas também não sei o que se passa
comigo.
Comentários
Enviar um comentário