No carrossel da vida



A vida é um carrossel que por vezes se torna completamente imprevisível e de consequências inusitadas. Foi um esforço tremendo terminar a minha qualificação académica com um doutoramento em filosofia. Realizei o mesmo enquanto trabalhava como empregado de mesa num restaurante com jornadas semanais de trabalho entre as 50 e as 60 horas. Comparando com outros percursos de doutoramento creio que só mesmos loucos como eu estariam dispostos, como eu estive, a fazê-lo; sem bolsa de FCT ou qualquer espécie de rede de segurança. É claro que houve momentos de intenso desespero, ao ponto de quase ter desistido do empreendimento. Da formação que obtive quase nenhum reconhecimento profissional tive. O máximo que consegui foram umas explicações em centros privados e uma consultadoria de filosofia numa peça de teatro sobre a obra de Camus. Nada de definitivo, nada de estável, nada de sustentável. Entretanto, findo o doutoramento, voltei a trabalhar na restauração. Foi pela cessação do contrato com o restaurante que estive um ano desempregado em que aproveitei, para além de folgar as costas, para obter mais formação. No caso uma formação de nível 4 (ensino secundário) ao abrigo do IEFP em técnico auxiliar de farmácia. Terminado o curso não consegui o estágio profissional que desejava e fui trabalhar como operador de produção para uma fábrica do sector têxtil – já antes, também no contexto do doutoramento, no ano final, estive a trabalhar como operador de montagem na indústria automóvel. Passaram 5 meses para que, sem que de modo algum o esperasse, uma farmácia perto de onde vivo me contactasse para uma entrevista. Consegui o lugar após a segunda entrevista com o patrão da mesma. É sem dúvida o melhor posto de trabalho que consegui até hoje apesar de toda a minha qualificação! É irónico como com uma qualificação de nível 8 não consegui trabalho tendo-o conseguido com uma de nível 4! Faz pensar naquilo que temos de andar para nos satisfazermos com um trabalho muito abaixo das nossas legítimas expectativas e das nossas valências. Mas estou genuinamente feliz. Começo no dia 2 do próximo mês. Quem sabe se mais tarde não faço uma licenciatura em farmácia, até porque penso que, na verdade na verdade, a minha carreira profissional começa agora, agora que tenho 36 anos. Não me arrependo por um segundo que seja do meu percurso académico em filosofia, bem pelo contrário, mas aprendi, não sem uma certa dor, a assumir que este não conflui com o meu presente e futuro profissional. Viro definitivamente as costas a qualquer perspetiva de conseguir  emprego "na área". È a vida, é o capitalismo, chamem-lhe o que quiserem. 

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