O comunismo como reino da igualdade e da liberdade



Como comunidade esquecemo-nos de como é viver num tempo sem Estado. E é portanto natural que esse tempo se apresente ao nosso imaginário, muitas vezes em simultâneo, sob o signo do tempo mitológico, do tempo bárbaro da guerra de todos contra todos ou do tempo irremediavelmente atrasado (atrasado para a civilização) das comunidades primitivas. Mas a persistência deste esquecimento revela um lapso ainda maior, ainda mais profundo, um lapso digamos ontológico (relacionado ao ser das sociedades): é que não conseguimos pensar, no presente e para o futuro (mesmo que sob a forma da utopia), uma sociedade sem Estado. E, no entanto, é esse apelo político que subjaz à mitologia comunista. O paradoxo do designado socialismo real – ou do socialismo que se pretende materializar politicamente através da máquina do Estado – é procurar fundar a sociedade dos produtores livres e iguais por via do Estado, procurando assim produzir a igualdade e liberdade por meio da reprodução da desigualdade e da obediência. Mas nem a sociedade com Estado é compatível com a sociedade dos produtores livres e iguais, nem esta sociedade depende de um ato de fundação como gesto de inscrição política de uma comunidade-Outra. A possibilidade do comunismo é tão forte, tão disruptiva, que não depende de qualquer criação política como correspondência a um certo universal, a uma certa imagem da sociedade ideal que cumpre ao Estado criar politicamente e preservar policialmente. A sociedade sem Estado dos livres e dos iguais “faz-se” (paradoxalmente sem se construir) ao arrepio de qualquer conceção ideológica, de qualquer ideia do que deve ser a sociedade, justamente porque se recusa a submeter, por seu estrito e ilimitado amor à liberdade e à igualdade, ao transcendente. Como podemos ensinar como devem viver aqueles que se recusam a receber lições de como devem viver?

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