O pavor ao mundo
Era fácil destruir Robert, deixá-lo
completamente arrasado. Destituído de autoconfiança, com uma personalidade
atribulada propensa à depressão e à euforia, conseguindo passar de um estado
para o outro numa questão de minutos, a mais inócua piada direcionada à sua
forma de ser e de estar era o suficiente para o fazer perder o chão. Era demasiado
fácil ridicularizar e ofender Robert e havia quem se servisse dessa fraqueza.
De natureza desconfiada facilmente se enredava numa nuvem cinzenta de
congeminações e conspirações. A sua natureza desconfiada ao limite da doença distorcia
a realidade; toldava-lhe o discernimento. Andava com cara de quem a todos lhe
deviam e ninguém lhe pagava. Punha-se a imaginar coisas, a relacionar
comportamentos e a somar palavras e frases dispersas que, aqui e ali,
ocasionalmente ouvia, para concluir fatalmente que estavam todos unidos contra
ele em mais um complô. Um olhar menos amigável; uma palavra mais brusca; um
gesto de desprezo ou de desinteresse; um flirtar incorrespondido; e era o suficiente para Robert passar a ver inimigos em todo o lado.
Com este feitio complicado explicava-se não só a sua insegurança, como, daí
derivado, o facto de nunca ter singrado na vida. Era uma autêntica vara verde sacudida
pelos seus ventos interiores; atormentado pelos fantasmas que ele mesmo criava.
Sim, tinha um certo talento, mas não tinha o caráter, a disciplina e a firmeza
para o desenvolver; estava fadado a morrer na praia, a deixar toda a obra
incompleta. Não se pode dizer que não tinha sido preparado para o mundo; o
problema era o fosso que se tinha cravado entre Robert e o mundo. Apavorado cada
alma humana era um tormento, um monstro. Quando tinha a cabeça ao colo de
Medley esta afagava-lhe o cocuruto exortando-o docemente a deixar as “minhoquinhas”.
Medley, a sua salvação e a sua ruína. Como dependia da companhia feminina para
exorcizar os seus demónios! Pensar que teria sempre Medley era ilusório, mas
era a ilusão de que dependia para não acabar absolutamente sozinho, esmagado
pelos seus pensamentos, essas vozes do interior que lhe pareciam sempre
estranhas, alheias, como se não fossem realmente suas.

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