Obsessão
A sua escrita e o seu pensamento eram por
demais superiores à sua escrita e ao seu pensamento que preferia não ler o que
Medley escrevia. A inveja que lhe tinha era tanta que ganhara aversão aos seus
textos, tinha medo de se queimar, de ser aniquilado pela incontestável
superioridade de Medley. Os sacrifícios, a paixão que empregava no ato de
escrever, o tempo dispensado, as ambições… tudo isso corria o risco de solapar
diante de um só parágrafo de Medley. Mas tinha de redobrar esforços, fazer a
travessia do fogo, vencer a barreira da frustração. Não podia ser o melhor, ao
menos partilhar o pódio com Medley, sem a ler, sem competir com ela, sem
procurar ser ainda melhor do que ela. E de cada vez que finalizava a leitura de
um texto de Medley, que esta sempre se apressava, como que por malícia, a
dar-lhe a ler insistindo sempre no seu parecer (como se este fosse alterar o
que quer que seja!), Robert quedava emudecido e pálido. Como podia amar alguém que
apenas desejava que desaparecesse, que sumisse da face da Terra? A vida tinha-lhe
sido caprichosa e insidiosa ao ponto de o ter posto a dormir com a pessoa que o
impedia de brilhar, de ser o número um, de estar em primeiro lugar. Tinha colocado
todas as fichas na literatura e a mulher com quem partilhava o leito todos os
dias lhe fazia ver o impostor que era. Ao lado do génio tão vertiginoso quanto
sereno de Medley, Robert estaria condenado a ser uma sua sombra. Parecia não
haver volta a dar; aquilo que para Robert dependia de um esforço hercúleo, de
horas de trabalho, do nauseante apoio nas bengalas de sempre, de um excesso de
contorcionismo e de figuras de estilo, de um trabalho minucioso de aranha ou de
relojoeiro, para Medley era resolvido num só lance, num só rascunho. Assim se foi
maturando essa ideia louca, resultante da obsessão pelo insofismável talento de
Medley, de que a tinha de matar, tirá-la definitivamente de cena, de que não
havia outra maneira. E o que o deixava mesmo exasperado, ao ponto de a desejar
matar nesses mesmos instantes, era a infinita paciência que Medley tinha para
com ele e para com as suas alterações súbitas de humor, e a sua abnegação
incondicional, agindo como se bastasse a Robert pedir que ela deixaria de
escrever de uma hora para a outra. Como podia Robert continuar a tolerar viver
com uma pessoa assim, tão nos antípodas da sua personalidade? A alvura de
Medley ofuscava e ofendia moralmente o espírito cinzento e mesquinho de Robert.
Se o destino ou um ser superior tinham colocado Medley na sua vida como desafio
à sua probidade então Robert estava disposto a enfrentar os deuses.

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