Os miseráveis
Tendia sempre para os miseráveis ou para aqueles que melhor os representavam. Mas nem por isso era propriamente dessas pessoas altruístas que fazem voluntariado e querem passar a vida a ajudar pessoas. Robert não era dessas almas caridosas de classe média, classe média alta, que acreditam nas virtudes da bondade e que podem fazer-a-diferença. Não era boa pessoa, mas também não era a pior pessoa do mundo. A inclinação para se juntar aos condenados da Terra prendia-se talvez com a sua necessidade inata de se relacionar com pessoas com quem em princípio podia brilhar, distinguir-se, destacar-se, assumir-se como superior; que o ouvissem, mesmo se não percebendo nada do que dizia. Ou talvez não fosse nada disso, e a sua propensão para se relacionar com os objetos de ódio e de desprezo preferidos das outras pessoas normais se devesse às suas origens humildes, mesmo proletárias. Ou então que as pessoas mais resolvidas e satisfeitas com a sua vida, as vencedoras, o intimidassem, revelassem o embuste que era. Ou ainda, outra hipótese, a sua autoestima moral dependesse desses danados, do refugo da sociedade. A verdade é que os vampirizava. E podias ver Robert a tomar o pequeno-almoço com uma prostituta; a atirar pedaços de pão aos pombos; sentado no banco do parque com um janado; de noite a embebedar-se rodeado de porto-riquenhos… Ao mesmo tempo Robert confundia-se com estes marginalizados, com a escória, e destacava-se no meio destes. Talvez fosse esse o objetivo, que falassem de si como aquele que sempre estava do lado dos mais fracos, da trampa que a sociedade recusava acolher. Quando estava com estes leprosos também ele era um leproso e, ao mesmo tempo, era alguém que fizera essa escolha, alguém que voluntariamente quisera ajudar os leprosos. No fundo talvez Robert não tivesse qualquer atração natural, inconsciente, pela plebe, os mais pobres dos pobres, mas que esta fosse deliberada, como se Robert quisesse marcar uma posição, mudar o mundo à sua maneira. Robert era diferente; a sua propensão para se relacionar com aqueles dos quais nada se podia esperar apenas arrastava a sua própria decadência material e espiritual, assim nunca podendo triunfar na vida. Desprezava a classe média e a sua hipocrisia, bem como a classe alta e o seu cinismo. Por isso se dava com os pobres, com os excluídos, ele mesmo era um pobre, e queria ajudá-los, contribuir para que eles vencessem os obstáculos numa sociedade que operava como um gigantesco dispositivo de ostracização dos “outros”. Mas Robert não era um deles e isso fazia com que ele próprio se sentisse como que vivendo numa região cinzenta onde as peganhentas garras da solidão sempre o ameaçavam; entalado entre a cruel realidade do submundo onde não pertencia e os privilegiados que o desprezavam pela sua traição e recíproco desprezo. Talvez um dia fosse devorado pela choldra, enquanto os seus amigos de classe média e os inimigos de classe alta assistiam rindo-se a bandeiras despregadas.

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