Os outros

 



Gostava de ser o centro das atenções, mas nem por isso gostava de se impor como tal, nem, muito menos, que o impusessem a ele como o centro das atenções. Acreditava profundamente que o seu brilho devia impor-se por si mesmo, sem forçar nada, sem artifícios, que ele pudesse ser inteiramente carisma e obra. Se acreditassem em Robert naquela que era a sua fé mais estrutural, mais constitutiva do seu ser, então isso deveria chegar para quem quer que o quisesse seguir o seguisse. Dias havia em que detestava as pessoas, outros em que precisava que elas o amassem incondicionalmente. Mais do que gostar de ser amado necessitava de ser amado para não ser arrastado, uma e outra vez, num enésimo turbilhão de depressão, angústia e solidão. Mas nunca podia obter tanto amor e tamanha atenção que ou não o cansassem, o deixassem exaurido, ou não se revelassem fatalmente limitados e contingentes. Tudo enfim se resumia à confiança e amor próprios dos quais era tragicamente destituído. Talvez tenha sido demasiado mimado, talvez, tanto que se ofendia facilmente e à mínima perturbação do seu estado emocional, o mais ínfimo imprevisto, enrubescia, contorcia os dedos dos pés e apenas desejava que um buraco se abrisse sob os seus pés. O desmesurado desejo de glória que nutria não se compadecia com o horizonte iminente de frustração e isso o dilacerava. O seu espírito encontrava-se dividido por esses dois anjos maus. O fervor fanático pela fama, pela eternidade, de um lado, e a frustração e mesmo impossibilidade de a obter, do outro. Os dias de glória e de esplendor rapidamente se extinguiam substituídos pela modorra do quotidiano. A vida seguia sempre, não apenas para si como para os outros, e isso esmagava-o. O seu mundo confluía inteiramente no mundo do seu génio, do seu corrupiar de fantasmas e remorsos. Tudo tinha de gravitar à sua volta, mesmo se o verdadeiro reconhecimento só pudesse dar-se quando os outros tinham as suas próprias órbitas e os seus próprios sistemas planetários. Como era difícil habitar num mundo onde existem outros e, ao mesmo tempo, como dependia dos mesmos no que mais de elementar o definia e o projetava enquanto indivíduo. Em qualquer dos casos acabaria sempre morto por estes.       

Comentários

Mensagens populares deste blogue

A emancipação do pensamento religioso

O conceito de proletário

Feliz ano novo Medley