Ser ou não ser filósofo
Quando alguém cursou a filosofia, frequentemente cita filósofos, tem tiradas mais intelectuais e abstratas, disserta num nível menos banal sobre assuntos que dizem respeito à existência comum, é ocasionalmente encostado pela pergunta: consideras-te um/a filósofo/a? Estou em crer que esta pergunta visa ter um efeito desarmante, mesmo agressivo, e que não deixa de ser um tanto ou quanto desonesta. Isto porque, antes de tudo, ser filósofo não é nenhuma profissão. Quer dizer, pode-se exercer profissões concernentes ao mundo da filosofia como a de professor de filosofia, mas em si a condição do filósofo – se o podemos sequer dizer assim – não está associada à condição profissional, à condição de assalariado. Assim a figura do filósofo, essa instituição que se faz pessoa, é menos uma afirmação pessoal, uma afirmação daquele que deseja ser tomado por filósofo, do que um reconhecimento dos outros, um reconhecimento social. É como, parafraseando, ninguém se fizesse filósofo por si mas os outros o tornassem filósofo através do ato do reconhecimento: não se nasce filósofo para si, a sociedade torna-o filósofo. Por isso a pergunta sobre se alguém se considera um filósofo é sempre uma pergunta provocatória que provoca embaraço no interrogado, como se a pergunta o deixasse absolutamente surpreendido, o apanhasse de surpresa. Não passa muito pela cabeça do filósofo (aprendiz ou sem reconhecimento) assumir-se como filósofo porque não é no título mas na atividade do filosofar que o mesmo se faz filósofo. Assim, paradoxalmente, quando alguém é aceite – e não apenas pelos seus pares – como filósofo isso relaciona-se muitas vezes com fatores sociais como a exposição mediática do mesmo – a sua autoridade; o seu impacto científico no mundo da filosofia; a sua pretensa originalidade; a sua integração numa determinada doutrina ou mesmo a inauguração de uma “escola” que o tem por mentor, etc. Mas quanto mais é celebrado publicamente como figura do filósofo menos filósofo é na medida em que o reconhecimento social é o reconhecimento da sua autoridade enquanto filósofo do que a pura atividade intelectual do mesmo.

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