Um equívoco fatal


Poucas vezes um equívoco como a tese marxista da história como história da luta de classes condicionou de forma tão nefasta todo um campo de ideias políticas. Não só porque a esquerda depende desta tese como de um dogma que sustenta toda a sua teoria e prática sobre a história; bem como esta conceção da história confundiu aquela que é a ontologia ocidental – ou, de forma mais alargada, das sociedades do Estado e do capital – com o necessário devir de toda a forma social sob um ponto de vista evolucionista. Mas não só é empiricamente falso que a história de toda a forma de sociedade seja a história da luta de classes, como esta conceção de história se baseia de facto numa asserção metafísica: de que o Ocidente – ou o hoje o Império – só pode fazer história a partir da luta de classes, isto é, da desigualdade. Assim, segundo esta leitura do sentido da história, o princípio constitutivo da sociedade igualitária por vir – o comunismo – é paradoxalmente constituído por meio do desdobramento histórico da desigualdade: a emergência política e económica do proletariado como sujeito histórico frente ao inimigo mortal do progresso (outra ideia metafísica) que é a burguesia. O paradoxo apenas aumenta quando o Estado é chamado a cumprir um desígnio fundamental, incontornável, nesta trama da sociedade desigualitária em busca da igualdade como forma política e social. E o maliciosamente chamado socialismo real não é mais do que a confissão política dessa aporia ontológica de procurar realizar o comunismo – a sociedade dos iguais -- por meio do Estado – por meio daquela que é a divisão política por excelência, seja entre os que têm poder e os que não têm, seja entre o poder político organizado em classe e a sociedade civil. É assim lógico que a fórmula do comunismo de índole marxista conduza necessariamente à violência arbitrária por pretender realizar a igualdade – o comunismo – por meio da desigualdade – da representação do povo proletário e da máquina repressiva e ideológica do Estado. O meu pessimismo ontológico diz-me que não é possível a transição de uma sociedade da desigualdade para o comunismo sem a liquidação total não apenas do Estado e do capital, mas ainda dessa metafísica da desigualdade que está na origem da própria filosofia dita ocidental. E o equívoco produzido pelo início lapidar do Manifesto do Partido Comunista é não só uma máquina de ilusões como de terror. Se pretendermos de facto ensaiar politicamente uma sociedade da igualdade por vir – e que virá, não por construção, mas necessariamente por rutura, por rutura ontológica -- será preciso enfrentarmos a metafísica da luta de classes que atravessa e subjaz a todo o corpus da obra de Marx.     

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