A esquerda contrarrevolucionária
O único horizonte revolucionário que a
esquerda tem para apresentar para a nossa época é a revolução simbólica ou a revolução
cultural num sentido não maoísta. Apesar da visão mecanicista e redutora a
esquerda mais ortodoxa, os liberais e os conservadores intuem bem que a
esquerda mais ampla, a esquerda do liberalismo, substituiu a luta de classes
pela guerra cultural. É certo que uma reflete a outra e uma condiciona a outra,
a luta de classes é uma luta cultural e não há classe que não se forme
culturalmente, mas de uma forma meramente esquemática podemos dizer que a
estratégia da esquerda deixou de ser o varrer a burguesia do poder
substituindo-a pelo poder do proletariado (mesmo que de uma forma mascarada/teatralizada) para passar a esgotar-se na conquista de maiorias. A
esquerda “revolucionária” não quer a revolução mas o voto de confiança do
eleitorado de forma a poder formar uma maioria governativa: aqui se esgota toda
a sua escatologia e programa. E é talvez neste “realismo político” a que
esquerda à esquerda do PS triunfalmente se associou que se encontra a razão de
ser para a incapacidade de ultrapassar a sua convivência nostálgica com a
história (daí também todo o abrilismo
como celebração ideológica) e, claro, toda a sua inerente melancolia. As revoluções
que a esquerda hoje comemora não podem deixar de ser representadas sob o símbolo
do romantismo, são revoluções românticas. Da mesma forma que se crê que se pode
transformar o mundo através da eleição da classe governante e da “mudança de
mentalidades”, particularmente através da função pedagógica (leia-se:
ideológica) da escola. Também talvez
por isso hoje a violência disruptiva, a violência antissistema, a violência
revolucionária, se tenha tornado tabu. O modo como se banaliza o uso do
conceito de revolução acaba por descrever muito bem a leviandade com que se
encaram as suas exigências. Todos somos revolucionários em potência que como na
enésima versão do Leopardo de
Lampedusa assumimos, num misto de cinismo e ingenuidade, que “para que as
coisas permaneçam iguais, é preciso que tudo mude”.

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