Asseio
Das primeiras coisas que Medley reparara
em Robert depois de terem ido morar juntos foi na sua obsessão pela limpeza.
Não propriamente a limpeza da casa, com a qual era sempre desleixado e preguiçoso
até ao tutano, mas o seu asseio pessoal, principalmente quando saía à rua,
quando estava com os outros que não a sua Medley. Robert não apenas tomava
banho garantindo que todas as partes do seu corpo eram meticulosamente
agraciadas pela água, o sabonete e o champô, bem como se recusava
terminantemente a usar a mesma roupa duas vezes seguidas sem ser lavada, o
mesmo se aplicando ao calçado. Para além das unhas bem aparadas das mãos e dos
pés. O desodorizante nos sovacos, o perfume no pescoço, a roupa sempre bem
engomada e de aspeto imaculado, como se a estivesse a estrear naquele mesmo dia.
Nem Medley conseguia ser tão exigente em matéria de higiene. Robert não tolerava
a hipótese de exalar o mais anódino cheiro a suor ou ter as mãos sujas. A sua
relação com a higiene das mãos era já do foro patológico. Andava constantemente
a lavá-las ou a desinfetá-las. Qualquer superfície onde tocasse com as mãos,
por mais imaculada que parecesse estar, tinha por reação o seu rápido
precipitar para o lavatório mais próximo. E só passados uns bons anos de
convivência no mesmo espaço é que Robert, instigado por uma Medley furiosa por
ele a ter obrigado a desinfetar a tampa da sanita logo que dela se levantou ou simplesmente
sugeriu que lavasse a boca antes de o beijar depois de a ter sujado com a
gordura das natas, lhe confidenciou de onde vinha essa mania tão extremada. Que
durante uma significativa parte da sua vida não tivera acesso a água quente por
ser um bem de segunda ou terceira necessidade lá em casa. Que durante a sua
infância e puberdade por diversas vezes fora gozado pelo seu mau cheiro e que
aproveitava as aulas de educação física, uma vez por semana, para tomar banho
de água quente. E mesmo no princípio da vida adulta tivera imensos problemas
para garantir que não fedia junto dos seus colegas de trabalho e se o local
onde trabalhava tivesse acesso a chuveiro para si era uma bênção que não
desperdiçava nem por nada. Inclusive uma antiga namorada sua lhe dera como primeira
prenda um vexatório pó talco para os pés. Tal era o odor pestilento e quase inelidível
que ficava no carro quando os dois fornicavam. E tais foram as humilhações que
Robert sofrera ao longo da sua vida graças ao mau acesso a cuidados de limpeza
que no pavor de ouvir ser apodado de novo como porco ou malcheiroso levava até
ao limite do doentio o estado odorífero do seu corpo, cheirando-se debaixo dos
braços ao longo de todo o dia ou tirando o calçado com o mesmo propósito.

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