De dia tratava da meticulosa distribuição dos corpos entretanto tombados

Desses resíduos tóxicos que a sociedade sempre libertava e produzia

À noite da exumação dos cadáveres

Lavava-se e dedicava o resto do tempo

À família, aos enlevados e imponentes tomos de poesia,

A Bach e a toda a existência barroca

À criação de mundos – como com vaidade gostava de dizer

Com os grandes filósofos da humanidade

E também da animalidade

Refletia sobre o estado da alma e do mundo

Dissertando sobre a existência ou inexistência do divino

Aprumava-se a rigor para observar com deleite o firmamento

Fazia amor e acabava as horas a pensar como a sua vida era perfeita

E a sua felicidade plena

Assim acabando por adormecer

O ciclo repetia-se com a sua dança de extermínio e de êxtase

De requintada, escrupulosa e burocrática destruição sistemática

E de culto aristocrata do sublime e do ócio

Levantava-se de raiz uma civilização inteira

E o resto do esforço era empregue na ocultação permanente da barbárie

Por vezes o dia entrava de tal forma pela noite adentro

Com o seu ar sedento e os seus mil punhais

Que civilização e barbárie se tornavam indistintas

E nessa penumbra era possível assistir a chusmas de canibais

Delirando ao som de Maria Callas enquanto salgavam a carne  

Violadores a citar Simone de Beauvoir e o seu segundo sexo

Serial-killers comovidos pela paixão de Cristo.   

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