Herança judaico-cristã

 


Há merdas que depois de ditas tudo tornam claro atuando como verdadeiras epifanias. Mesmo sendo merdas que até já sabíamos mas que estavam como que a aguardar pelo momento certo para se revelarem em toda a sua intensidade e significação. E a verdade é que de facto a herança judaico-cristã da culpa sempre teve uma influência muito forte na minha vida, principalmente no que respeita às relações laborais. É como um aguilhão torturando a minha vida laboral; a relação com os colegas, com a hierarquia, com os donos dos meios de produção, com o trabalho em si. Uma espécie de culpa que se exacerba em tratando-se de relações de poder e de autoridade, de hierarquias. Só me sinto livre quando os outros são incondicionalmente livres e igual em meio de iguais; nunca numa situação de subordinação. E esta herança judaico-cristã extravasa a esfera da produção para se disseminar por todas as dimensões da minha existência à medida que interiorizo uma culpa que quanto mais recalcada mais difícil é de ser exorcizada, expulsa. Culpa de não responder às expetativas dos outros; de falhar; de não ser suficiente. Diante da esfinge da culpa nem o perdão nos liberta, só a fuga e a cura do tempo. O sentimento de culpa e o temor de não corresponder retraem a autoestima e a autoconfiança: são elementos antagónicos. Quanto mais culpa e mais medo menos autoestima e autoconfiança e vice-versa. Com o tempo compreendi que não é fácil mudarmos a nossa personalidade, a nossa maneira de ser, mas parece que libertar-me deste aguilhão moral apaziguaria uma significativa parte do meu tormento, e, com isso, permitir-me-ia ser mais livre porque mais liberto.       

 

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