Pensa na voracidade da vida

Em como ela transforma qualquer corpo

Mesmo o para nós mais íntimo

Num espetro

Em como ela esfuma qualquer paisagem

Como a diferença entre a realidade e a ficção

Se esbate

Como o real entra pelo sono adentro

E o sono pela vigília adentro

E a matéria se decompõe

Até dela só restar uma volátil substância gasosa

Pensa em como nós mesmos pouco a pouco

Nos tornamos invisíveis

O quanto nos deixamos de reconhecer

E nos surpreender pelas imagens da infância

Em como com o passar dos anos nos estranhamos

E tudo à nossa volta e dentro de nós

Se esfuma, se esvai

E o mundo inteiro se transforma a nossos olhos

Nessa dissipação permanente

E o que tomávamos por certo poucos instantes atrás

Pertence agora à ordem do mitológico, do obscuro

Somos uns para os outros fantasmas deambulantes.  

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