Pessoas caixas de surpresa e pessoas rasas



Pessoas que são caixas de surpresa e pessoas que são rasas e meridianas. Era assim que Medley, num primeiro momento, dividia as pessoas. Robert pertencia ao primeiro grupo. O que, por um lado, a deixava autossatisfeita por ter escolhido amar alguém complexo, com muitas camadas, e, por outro lado, a deixava intranquila e insegura por toda a carga de imprevisibilidade que uma pessoa com essas características comporta. Quando Robert era luz todo ele luzia, mas quando era noite a noite em si era profunda e tenebrosa. Apesar da convivência de anos, da coabitação, tinha momentos que Medley sentia viver com um estranho, com alguém que não conhecia de facto. É verdadeiramente impossível atravessar a caixa-forte que cada pessoa encerra no seu corpo e na sua vida interior. Mas o mesmíssimo drama ocorre no interior de cada pessoa. Cada pessoa é para si mesma uma caixa-forte. Não conhecer Robert naquilo que este era em toda a sua radicalidade e ser era tão verdade quanto Robert não se conhecer a si mesmo ou Medley a si mesma. Habitamos em quartos escuros separados por corredores fracamente iluminados, e é nesta condição que temos de comunicar uns com os outros e também viver. Mas se ao menos Robert fosse uma pessoa rasa! Exaustivamente repetitiva e não encerrasse qualquer ou pelo menos tanto mistério! Que enquanto as circunstâncias não mudassem os seus comportamentos e atitudes se mantivessem estáveis! Que a sua forma de vida, a sua ética, fosse essencialmente burocrática, dinâmica mas burocrática! Por vezes Robert refugiava-se nos seus pensamentos e inquietações que nem Medley, com a sua voz doce e todo o seu altruísmo e abnegação, a sua disponibilidade incondicional, conseguia penetrar. E ele ali ficava, como que envolto numa invisível nuvem negra ou tempestade branca, de olhar vidrado, paralizado, no lugar de sempre ao sofá ou sentado na cama enquanto Medley fingia dormir. Para onde ele se escaparia, a que terrores e mortificações se entregava? Que futuros pálidos e sem esperança o seu pessimismo irremissível profetizaria? E como Medley podia afinal entregar o seu futuro a uma pessoa em quem não podia confiar totalmente? Como poderia confiar uma cria sua a este homem que num momento conseguia ser tão luminoso e exuberante que arrebatava tudo à sua volta agindo como uma força centrípeta e, noutro momento, se encerrava de tal modo na sua tristeza e angústia que parecia impossível alguém o libertar desse torpor. O certo é que Medley vivia consciente e inconscientemente torturada pela hipótese de a qualquer momento Robert partir, a abandonar. Medley sentia que não era o suficientemente mulher para ele, para aquele anjo caído e perturbado. Sentia que a qualquer momento Robert se pudesse fartar dela, da sua mediocridade, do seu espírito raso e meridiano, e simplesmente se fosse embora. Ou que acabasse fatalmente atraído por outra descoberta, por outra mulher, aventura ou desejo. Percebia viver com um espírito livre e Medley só queria viver e estar com alguém que pudesse prender e a quem se pudesse prender. Robert era fogo perpetuamente expandindo-se e retraindo-se; Medley era terra, permanentemente assentando raízes. Com o medo e a expetativa da humilhação de ser largada Medley resolvera tomar a iniciativa, com alguns rodeios e muita incerteza nas palavras e no semblante intimidado, os olhos azuis-escuros quase em pranto, e para espanto de Robert a quem nunca passaria pela cabeça tal situação, sugeria que o melhor seria talvez cada um “seguir o seu caminho”, isto é, separarem-se. E razões? E motivos fortes? Em vão Robert se esforçava por os encontrar. E ao fim de meia hora de conversa um pouco sem sentido e circular lá acabou por convencer Medley a acalmar-se, a dar uma outra oportunidade à relação. E abraçou-a calorosamente encostando a sua cabeça de caracóis louros ao seu ombro jurando-lhe que tudo ia correr bem, que se Medley o deixasse ele não saberia o que fazer à sua vida. Que mudaria o que fosse necessário na sua personalidade para que Medley continuasse com ele; que se adaptaria. Que Medley não precisava de ter medo que ele, Robert, estava apaixonado e alegremente condenado à sua pessoa.      

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