Um Hamlet na vida


 

Robert podia muito bem ser um personagem shakespeariano, uma espécie de Hamlet. Cheio de talento mas hesitante; seguro dos seus princípios e valores morais mas realmente cobarde; alguém com tudo para dar certo mas que por alguma razão nunca dava certo. Devido à sua falta de confiança, às suas dúvidas permanentes, à incapacidade de levar um projeto até ao fim, de ser convicto ao ponto de ser dogmático, por tudo isto Robert preferia ser comandado do que comandar, ser governado do que governar. A simples expetativa de vir a ser protagonista em um qualquer assunto a que irrefletidamente tomara iniciativa ou que coincidia com os seus dotes amedrontava-o. Principiava a suar frio, enrubescia, começava discretamente a beliscar-se ou a contorcer nervosamente os dedos dos pés. A sua vida podia resumir-se à fuga permanente do protagonismo; de assumir a dianteira. Talvez houvesse poucas coisas que mais temesse na vida do que o julgamento dos outros e desse jugo não se conseguia Robert libertar. A simples perspetiva, mesmo que infundada, de ser vexado pelos seus atos ou palavras paralisava-o, impedia-o de liderar. Por vezes estava de tal forma embrenhado na sua atividade que nem dava conta que o observavam, mais do que isso, que admiravam a sua verve, o brilho que emanava, mas mal se apercebia do seu inadvertido protagonismo logo se voltava a fechar em copas como essa flores que se voltam para dentro com o anoitecer. Preferia apagar-se a enfrentar o mundo. Medley pressentia nele um qualquer obstáculo, um bloqueio, que o impedia de ser feliz, de se amar a si próprio, e isso provocava um sentimento profundo de piedade nela. Mas até a piedade amesquinhava Robert, aprisionava-o na sua menoridade. Seria por isso mais ou menos natural, isto é, lógico, que desprezasse este mundo de competição permanente, de vencedores e de vencidos, alimentando assim devaneios sobre mundos utópicos por vir, onde todos os homens e todas as mulheres eram iguais e não se esperava nem mais nem menos de uns ou de outros do que aquilo que estes e estas já eram e podiam vir a ser. Se Robert tinha perfeita consciência que estava impossibilitado, pelo que havia mais profundo no seu ser, de triunfar na vida, de cumprir aquilo que esperavam de si, e daquilo que ele próprio edificara para si, então não podia desejar outra coisa que não que todos e todas à sua volta fracassassem, fossem todos tão perdedores quanto ele.       

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