Ser um outro
Na sua juventude viveu sempre sob o preconceito – e máxima – de que era possível, a cada dia, transformar-se, “ser um outro”. E a cada manhã onde despertasse era o mundo inteiro que despertava consigo. Um pouco como se fosse um camaleão, alternando de personalidade e de atitude consoante a sua vontade. A juventude era verdadeiramente a representação do reino da liberdade. E com o amadurecimento essa ilusão de poder ser o que quisesse, bastando para tal a capacidade de mimetizar os outros, foi-se esvanecendo, perdendo o seu fulgor. Perder a juventude significava para si não propriamente estagnar, ficar paralisado numa certa conceção sobre si mesmo, não conseguir reagir sequer à circunstância, mas já não ter capacidade – nem força -- para largar a cada vez mais pesada bagagem que carregava. Parecia que o passado, o seu legado, teimava em retornar com toda a sua violência incontrolável de cada vez que o procurava definitivamente deixar para trás. Concordava com o famoso título de Roth: a mancha humana (the human stain). Qual Sísifo a cada novo desafio que a vida lhe apresentava, mesmo se as surpresas diminuíssem proporcionalmente em relação à idade, procurava vencê-las transcendendo-se a si mesmo, procurando vestir a pele de alguém à altura dos obstáculos. Apesar de tudo não tinha perdido ainda o credo infantil de que o seu Eu era apenas uma máscara; melhor, um teatro permanente de máscaras. E por detrás dessas máscaras não existia um puro “verdadeiro eu”, pelo contrário, o Eu não existia de todo. O Eu era, é, uma mistificação, uma obsessão, uma mentira necessária. Por outro lado, sofria da angústia de escolher a máscara mais adequada a cada situação. E sofria também porque a máscara não existia de todo, porque não se conseguia libertar daquilo que era, que se calhar sempre fora… Bastaria ter a força suficiente para seguir uma só ideia, para viver de acordo com um ideal, para se agarrar a uma atitude sobre o que deve ser a existência, para, qual Arquimedes, levantar o mundo inteiro de um só impulso. Pensava no quão bizarro e irónico é o passarmos uma vida inteira a procurar saber como viver e acabarmos por a desperdiçar dessa maneira.

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