Náufragos
O nosso ofício não era o de enterrar
os mortos, livrarmo-nos dos seus corpos, nem sequer o de curar os feridos e os
doentes; o nosso ofício era o de não deixar afundar os náufragos. Porque eles
já eram náufragos antes mesmo de se afundarem. Mas era imprescindível não os
deixar afundar ainda mais. Cuidar dos náufragos: assim se resumia o nosso
trabalho. Não transportávamos os cadáveres numa barca para o reino dos mortos,
nem curávamos as maleitas dos enfermos com as nossas caras de anjo e as nossas doces
mãos de fada. Lançávamos precárias e finas ripas de madeira a esses náufragos
da vida que se amontoavam indefinidamente formando uma montanha interminável de
corpos de náufragos; corpos nus e amarelos de náufragos onde não se conseguia
discernir muito bem onde terminava o braço pendente de um da mirrada perna de
outro, o olho de um do umbigo de outra. Alguns náufragos viviam nas costas de
outros náufragos e estes nas costas de outros e assim sucessivamente. Mas no
fundo todos eram náufragos e os náufragos cuidavam uns dos outros desde os
primórdios da humanidade. Quer dizer, muitos náufragos não podiam cuidar dos
outros porque nem sequer se conseguiam cuidar deles próprios. E então nós cuidávamos
desses náufragos que não conseguiam evitar o naufrágio pelos seus próprios
meios; mas eles já estavam naufragados. Por vezes não havia muito a fazer por
esses náufragos, apenas, talvez, além de permitir que se afundassem, soltá-los
das nossas mãos, dar-lhes uma palavra de conforto, de empatia, de
solidariedade. Porque os náufragos a que prestávamos assistência não eram só “os
nossos náufragos” como o espelho do nosso próprio naufrágio ou da nossa
condição de náufragos futuros para além dos náufragos que já eramos. A estes a
vida tirou-lhe todas as referências, o vislumbre da ilha da utopia ao fundo, a
boia da esperança, o bote do fundamento, a imprescindível companhia de outros
náufragos nessa marcha coletiva para o naufrágio. E era muito difícil convencer
um náufrago de que devia arrepiar caminho do naufrágio, agarrar-se com todas as
suas forças à vida, lutar contra o seu afogamento. Porque na verdade nem
conseguíamos justificar muito bem por que razão o náufrago se devia desviar do
seu destino de náufrago, resistir ao seu predestinado afundamento, e então era
muito mais fácil iludi-lo iludindo-nos a nós mesmos, contar-lhe todo o tipo de
patranhas, empatar o seu tempo com charadas, entretê-lo e diverti-lo, para que
ao menos pudesse afundar-se sem sequer dar-se conta de que estaria a perder o
ar.

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