O burgesso



O clímax deu-se quando Nádia se recusou a limpar o vómito que o seu marido, de nome Iúri, tinha deixado no tapete da sala como que em obscena forma de prenda. Ainda combalido da bebedeira colossal, com a cabeça a latejar de tal modo que parecia poder explodir a qualquer momento, o andar cambaleante, Iúri atravessou a sala para ir à cozinha beber sumo pela garrafa e trazer um pacote de batatas de fritas. De seguida voltou à sala deixando-se cair no sofá ao mesmo tempo que ligava o televisor (com o comando, claro está). Iúri tinha um ar rude que combinava perfeitamente com o seu escasso cabelo, o aspeto desmazelado de trabalhador das obras e a sua obesidade mórbida que fazia questão de ostentar e não apenas dentro de casa. Nada se deixava ler através dos seus vazios olhos castanhos. Apesar de descalço não foi de imediato que percebeu que pisava qualquer coisa estranha, de carácter peganhento. Gritou por Nádia mas ela não estava lá. Gritou pelo filho, David, mas ele também não estava lá. Ter-se consciencializado, apesar dos torpores da ressaca, que a “sua” Nádia não tinha limpo o seu vómito ofendia todas as suas noções mais burgessas de “dever matrimonial” e “lugar das mulheres”. Era inconcebível que a sua mulher tivesse deixado a casa “naquele estado”, e agora nem sequer sabia onde é que ela parava. E os miúdos!? Possesso de cólera, quase recuperado dos efeitos do álcool, ligou intempestivamente para Nádia, mas ela não atendia, o telemóvel ia parar ao voice-mail. Ligou uma, duas, três…, uma vintena de vezes. Nada. Nem sequer tomou banho, ao menos passar água pelas trombas, e fervendo de ira, de calções azuis às bolinhas laranjas, t-shirt surrada sem mangas, as havaianas nos pés gordos, saiu porta fora. Mas para onde? Onde procurar Nádia sem nenhuma pista?


Que Nádia se tenha demitido do emprego por não querer continuar a limpar a merda dos outros era uma coisa, agora que não quisesse limpar a merda que o seu marido e os seus filhos faziam, isso é que era completamente inadmissível. Que procurasse outro emprego, que fosse servir às mesas, costurar para uma fábrica, ou até dá-la para algum beco ou mato (como Iúri tinha sugerido já completamente fora de si), isso era problema dela, já o que o Iúri não podia admitir é que Nádia tenha tido o desplante de sugerir que deviam passar a dividir as tarefas domésticas. Que Iúri, com aquelas mãos de sapo, devia, “em igualdade de circunstâncias”, e segundo certas conceções de “justiça social” que pouco a pouco envenenavam as mentes das mulheres (mesmo ou especialmente as mais pobres, simples e provincianas), mudar também as fraldas do recém-nascido isso era motivo mais do que suficiente para espancar a sua mulher. E foi o que fizera. Bastara um só soco vindo daquelas mãos enrijecidas pelo trabalho duro nas obras para a frágil Nádia ter caído redonda no chão. Sem perceber se se arrependera ou não, ou sem dar sequer tempo para lidar com esse tipo de sentimentos, sem permitir que essas emoções “afeminadas” pudessem aflorar, e acossado pela choradeira infernal dos dois filhos (David de oito anos e Alexandre de escassos meses), Iúri rompeu porta fora direitinho ao café para, à sua maneira, lidar com as complicações da vida matrimonial, isto é, embebedar-se. A raiva que lhe explodia no peito era de tal ordem que nem se preocupara em assegurar-se que Nádia recuperava os sentidos ou que os seus filhos ficavam em segurança. Abandonara-os simplesmente.

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