O ridículo





De facto sentia que estava a ser ridículo. O coração dizia-lhe que estava a ser ridículo e a razão apenas o corroborava. Mas isso não queria dizer que tinha de deixar de ser ridículo, pelo contrário, o que o seu coração e a sua razão lhe diziam é que tinha de levar essa ridiculariedade - - essa condição de ser ridículo - - até ao fim. Apaixonar-se por Medley fora sem dúvida uma das coisas mais estúpidas que lhe acontecera na vida, o que, por essa mesma razão, validava o carácter incontornavelmente ridículo de toda a situação pela qual passava. Sentia uma necessidade imperiosa de se lamentar pelas situações confrangedoras que causara ao se ter deixado apaixonar por Medley. É verdade que não tinha culpa por isso, “o coração tem razões que a razão desconhece”, mas não deixava de achar que devia pedir desculpa, não pela sua paixão, mas pelo embaraço que a sua paixão causara na outra pessoa: Medley. Como não podia simplesmente fazer reset às suas ações do passado, continuava a estar ao seu alcance pedir desculpa por a sua paixão ter exposto o ridículo de uma relação à partida impossível, ridícula. Essa vontade de pedir desculpa era justamente proporcional ao seu medo de ser exposto ao ridículo por Medley, diante da qual tinha exibido todo o seu carácter - - e desejo - - ridículo. Talvez se pedisse desculpa pelo embaraço que julgava ter causado nela, pensava Robert, pudesse ultrapassar a profunda humilhação a que o ridículo o tinha sujeitado. 



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