Terror e desejo



Contrariamente talvez àquilo que o nosso senso comum pretende nem sempre é fácil traçarmos a linha do intolerável. Definirmos com clareza o limite a partir do qual x comportamento ou y ação passa a ser intolerável à luz, claro está, dos nossos valores. Iúri, devido à idade, à obesidade e ao seu estilo de vida (se é que assim podemos chamar ao seu completo desdém por hábitos saudáveis que promovem o bem-estar e ajudam ao prolongamento da esperança de vida), tinha perdido uma parte central da sua masculinidade. Trocando por miúdos: o vigor. Entendamo-nos: já não tinha força na verga. Em linguagem técnico-científica: já não conseguia ter uma ereção senão com o auxílio farmacológico. Apesar dos seus quarenta anos e de ter dois filhos nem por isso deixava de ter desejo sexual, mais não seja por achar que era seu dever conjugal perante a mulher e, principalmente, perante os seus amigos, e, quem sabe até, perante a sociedade. No fundo nem era tanto desejo sexual, líbido, quanto era desejo de afirmação. Pensava Iúri que se não dominasse Nádia sexualmente que esta facilmente o trairia. Julgou Iúri, do alto dos seus cem quilos, que por o bebé estar sossegado e David há muito que dormia, e ao ver Nádia deitada na cama apenas com os seus calções brancos, apetecível como nunca, que era um bom dia, ou uma boa noite, para cumprir o seu ritual. Tomou então o sildenafil e sentou-se um pouco no sofá da sala enquanto fazia festas no baixo-ventre. Daí a uns minutos regressou ao quarto. Parecia um autêntico predador avançando passo a passo em direção à sua presa. Nádia dormia de lado, devia estar completamente extenuada, pobre coitada, a sua pele macia e morena parecia brilhar do calor, uma fina camada de suor cobria-lhe o corpo todo lambido pela luz suave do luar. Dormia sem sutiã e destapada, tal era o calor. Gigante, Iúri começou por a esmagar com a sua sombra imensa. Estava muito perto da sua cara, pronto para a acordar com a sua boca fétida e cavernosa, quando Nádia, algo surpreendida e depois alarmada, o viu em cima de si, esmagando-a com o seu peso bruto. Quis reagir afastando-o, dizendo-lhe que não, justificando-se com o acordar do bebé. Mas Iúri num só movimento, como se de uma pena se tratasse, endireitou-a puxando-a para junto de si, baixando-lhe de seguida os calções e investindo com todo o vigor que conseguia. Ao princípio Nádia ainda se debateu procurando repeli-lo de cima de si; chegou mesmo a gritar sendo prontamente abafada pela mão descomunal de Iúri. Só depois de se satisfazer, com a respiração de tal modo ofegante que parecia anunciar um enfarte a qualquer momento, é que Iúri saiu de cima de Nádia deixando-se tombar para o seu canto da cama. Nádia, aterrorizada e muda de impotência, com esforço abafava o seu choro em forma de gemido e que em nada parecia abalar a satisfação selvagem de Iúri. 

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