Uma escolha política
É claro que não tinha engolido as patranhas que a extrema-direita e a direita católica propagavam sobre a “agenda lgbt”, a “cultura woke”, a “ideologia de género”, a “doutrinação de género, o “marxismo cultural”, a colonização das faculdades de ciências sociais pela esquerda radical, o politicamente correto, o satanismo, etc., etc., mas com o tempo percebera que ser gay era também uma questão política, de orgulho e até, porque não, de escolha pessoal, uma escolha política que podia substituir-se ao desejo sexual e à necessidade de amor, a essa carência afetiva que não podia ser colmatada com o amor incestuoso dos pais ou com os amigos. Jonas escolhera ser paneleiro como parte importante do seu ativismo político contra a ideia burguesa da família tradicional. Mais ainda, contra a ideia de que a idade adulta só chega quando se constitui família (na verdade, uma certa ideia ou arquétipo de família). Quando se deixa a casa dos pais, quando se “arranja” “uma mulher”, quando se casa, quando se tem filhos… e, principalmente, quando se trabalha e se luta por essa mesma família estando predisposto a sacrificar tudo pelo bem-estar da mesma. Não se podia dizer anticapitalista e depois fazer girar o mundo à volta da sua família e da defesa dos seus “valores”; como se a família fosse uma outra fronteira em torno da qual se separa um “nós” de um “outros”. Portanto, pode dizer-se que a escolha de ser gay, de recusar com desprezo uma vida como homem cis heterossexual, se encaixou de forma coerente nesse movimento de revolta contra o estado do mundo, o seu complexo de opressões, que o acompanhava desde a infância. A luta contra a dominação do capital conduziu-o a desfazer-se de todas as definições possíveis de família e a transcender as pressões sociais para que definisse, de forma clara e definitiva, a sua orientação sexual. O seu coração tinha-se tornado demasiado grande para um só parceiro ou uma só parceira.

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