A oração da impotência
Criara uma espécie de oração da impotência. Não acreditando em divindades ou num ser transcendente, não se deitava sem que cravasse no seu coração os milhares de crianças caídas mortas em Gaza ou as mulheres caídas em desgraça no Afeganistão sob tutela dos talibãs. Penitenciava-se procurando colocar-se na pele dos trabalhadores imigrantes e não imigrantes lentamente trucidados pelas fábricas do seu país. Procurava não alhear-se do mundo para se deitar entregando-se inteiramente a ele, a ponto do sono lhe ser inviável e mesmo intolerável e imoral. Pouco importava se o sofrimento do mundo era inevitavelmente incomportável para ele, para o seu coração débil. Por alguma razão misteriosa, obscura, religiosa, acreditava que de alguma maneira tinha de transportar consigo essa interminável e terrível chusma de vilipendiados pela injustiça terrena, mesmo se as chagas fossem impossíveis de sarar. Procurava fazer a sua vida esfregando e contorcendo a quotidianidade nessa ferida aberta. É óbvio que tal se revelava dia a dia insustentável e, claro, insuportavelmente sofrível. Cumpria uma pena que a si mesmo todos os dias inutilmente atribuía. Ninguém escutava a sua prece porque ela não tinha sequer destinatário, ecoava no silêncio da escuridão sem fim. No diário da sua impotência havia lugar para se compadecer pelo sofrimento dos seus semelhantes mas essa paixão não era politicamente frutífera. Tudo parecia fora do seu alcance, e mesmo o que estava dentro do seu raio de ação, nem por isso deixava de desaguar no mesmo rio de autodestruição e fatalidade, de desespero e autocomiseração. Para quê afinal ter misericórdia para com esses povos penitentes e sofredores espalhados pelos quatro cantos do mundo quando um cidadão anónimo como Ivan nada podia fazer para reverter a sua situação? Entretanto o mundo parecia-lhe ainda mais escuro e estreito se agisse motivado exclusivamente pelos seus interesses e por aquilo que julgava estar dentro do seu alcance. Edificara o seu muro da lamentação ao redor desse sentimento visceral e inalienável de impotência. Pensar nos outros era também uma boa razão para não pensar em si mesmo.

Comentários
Enviar um comentário