Amar Medley
Amando Medley, ou, o que vai dar ao mesmo, julgando amar Medley, pretendia Robert reconciliar-se com a sua juventude. Em nada mais se baseava esse pseudo-amor, essa fixação adolescente. Essa juventude perdida que julgava poder reabilitar conquistando a jovem Medley. Mas, no fundo do seu coração, sabia que se a conquistasse a consequência não seria a de recuperar a juventude mas a de envelhecer Medley – não era possível um meio caminho. E agora entristecia-o profundamente ver escapar-lhe Medley como a perfeita metáfora da juventude, da juventude que quando era jovem desprezou e que agora a todo o custo pretendia recuperar, ou, pelo menos, simular que recuperava. O rosto níveo e sorridente de Medley como um ataque mortal à sua inexorável marcha de decadência. Não podia haver resquício de romantismo no envelhecimento. E saber que o desejo de vingança era totalmente infrutífero neste caso; que namorar Medley não o iria reconciliar com a juventude que por sua e tão sua responsabilidade perdera. Então deixou-a ir como a um anjo, ou a uma sereia, que parte para a eternidade dos jovens, esse imaginário paraíso dos velhos, e a ele, Robert, só lhe restava a conformação com a perda. Não o luto, mas a coragem de abraçar todo o peso da sua progressiva falência física e moral; do carácter insuperável da sua perda. A confissão do fracasso que não se deixa trair pela voz e que mantém ainda um certo charme e elegância como o irresistível perfume dos decadentes. Robert era tão só o espectro não de algo que havia sido na juventude, mas da promessa daquilo que poderia ter sido. É curioso como a expressão “vingar na vida” reflete toda a profanidade que sustenta os que têm sucesso, principalmente a sua traição.

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