Melancolia



De súbito, como uma espécie de força que vem de dentro, uma sensação de impotência fraturante, avassaladora. Não sei, podia dever-se à enxurrada demencial de notícias sobre um mundo que parecia poder rebentar a qualquer momento. O genocídio em gaza, o barril de pólvora no médio oriente, o antissemitismo e o anti-islamismo, a guerra na europa entre a Ucrânia e a Rússia e que envolvia as chamadas potências mundiais que disputavam a liderança do mundo por interpostos Estados menores, os fogos apocalípticos mas também as cheias, a crise financeira e a insuperabilidade do capitalismo. Tudo isso, toda essa ameaça latente de um mundo em risco de colapso, provocava-lhe uma ansiedade tremenda e simultaneamente conformada. Uma ansiedade paradoxalmente calma, serena, ainda que profundamente inquieta. Inquieta mas não irrequieta. Algo, uma sensação difusa, que talvez nem se pudesse designar por ansiedade. Pressentia que o seu mundo, o seu modo de vida, a paz e a tranquilidade que entretanto conquistara, todo o seu relativo conforto material, tudo isso estava em causa. Imprevistamente era como que tomado por visões distópicas de uma ordem do mundo em ruínas. Imaginava como reagiria, p. ex., à eclosão real da terceira guerra mundial. Uma guerra trazida para dentro do palco da paz estúpida, quase entediante, que então vivia. A este sentimento somava-se, claro, a imprevisibilidade da morte. A persistência desse “incómodo” que era o de em qualquer momento deixar de existir, de ser. Todos esses pensamentos e, principalmente, emoções, abalavam-no irresistivelmente, como que sem possibilidade de remissão, e, sem dar por isso, ficava absorto e triste quando ainda há pouco ria e todo ele era alegria e êxtase. A sua asma chegava mesmo a agravar fazendo com que se sentisse asfixiado. O tempo alagava-o por dentro como se afundasse. 

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