"Noites brancas"




A solidão era tamanha e a urgência de se libertar das tantas emoções recalcadas que qualquer imagem de comoção coletiva ou pequeno gesto de superação e de humanidade o emocionava e o fazia chorar. Sim, Robert chorava baba e ranho. Lembrava-se que fazia décadas que não conseguia libertar uma única lágrima e agora, numa catarse, purificava-se pelo choro. Chorar sem freios era como libertar-se de um peso monstruoso que o martirizava solitariamente. Apesar da sua máscara de sujeito introvertido, reservado e até um pouco elitista, também não conseguia passar indiferente ao desejo de brilhar, da ânsia de uma fugaz aparição na televisão, uma pequena nota no jornal onde inequivocamente viesse escrito o seu nome e, quem sabe, relatada a sua história; de poder apresentar-se diante dos seus semelhantes com a figura e a confiança de alguém que já tinha feito qualquer coisa, que era também qualquer coisa e não apenas mais um entre a ruidosa multidão de uns. O abismo da sociedade do anonimato apavorava-o. As luzes, as câmaras, os aplausos, a atenção do auditório, tudo isso o fascinava! Pouco importa se tudo era afinal efémero e postiço; como um minuto de felicidade no Noites Brancas um só minuto de glória e de luminosidade chegariam para justificar toda uma vida. E ele merecia, ele, Robert, merecia! Caso contrário mais valia mandar tudo com os porcos; um tiro nos cornos à boa maneira dos escritores trágicos e dos maridos endividados ou das testemunhas acidentais perseguidas pela máfia. Uma história de superação e de transcendência, um cão salvo da fúria das águas por um intrépido e desconhecido civil, um filme ou uma série que apelassem ao coração com os seus sentimentais exemplos de universalismo concreto, de abnegação e de grandeza moral, a vida tal qual ela é, tudo isso bastava para se comover profundamente ao ponto de aí perceber a essência da humanidade e discernir o importante do acessório. Sentia-se profundamente sozinho; um só abraço, uma cabeça terna de cabelos longos encostada ao seu ombro bastariam para se reconciliar com a vida, mas infelizmente até isso lhe parecia interdito. A simples ideia de ser apenas mais um entre os demais deixava-o insano; a possibilidade não da morte iminente, mas da morte anónima iminente, apavorava-o. Oh, sociedade da desigualdade! Ah, momentos de fama, desejo de reconhecimento, pulsão para a morte! O sentimento de frustração e de fracasso era de tal ordem que só o sofrimento lhe servia de consolação; que, em toda a sua radicalidade, o devolvia e o enraizava no mundo. Olhem, vejam como o homem chora no seu pequeno quarto entre os milhões de homens que choram pelos milhões de milhões de quartos do mundo quais “génios de mansarda”!         


Comentários

  1. ao menos ainda têm quarto(s). há quem chore e nem isso tenha. ps: https://www.youtube.com/watch?v=3ZGkdW80gnc

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

O conceito de proletário

A emancipação do pensamento religioso

Feliz ano novo Medley