Olhos, para que vos quero?



Não sei se os “olhos são a janela da alma”. Creio mesmo que é por puro preconceito que procuro no olhar dos outros a essência do seu caráter, o seu brilho intrínseco, a sua personalidade distinta, a sua singularidade, aquilo que o distingue dos demais. E olhos e olhares há para todos os gostos. Não se trata apenas da cor dos olhos, trata-se também da específica luminosidade dos olhos, da tonalidade concreta dentro da cor genérica dos olhos, da sua incandescência, mas também da sua intensidade, se são olhos mais mortiços, ou, pelo contrário, mais vivazes, se são mais destemidos, ou, pelo contrário, mais tímidos e fugazes. Lembro-me de ler alguém escrever sobre essa opacidade do olhar que torna as pessoas impenetráveis, indecifráveis, e, também por isso, sinistras e imprevisíveis/perigosas. Entretemo-nos a procurar nas peculiaridades do olhar a personalidade do psicopata; ou no olhar subitamente arregalado a denúncia do desejo ou mesmo da malícia que se fez ou que se está prestes a fazer. Os olhos e o olhar, sendo que a primeira é matéria/corpo e a segunda espírito/alma, são autênticos índices da personalidade; e se tivéssemos o dom de perscrutar em toda a profundidade os olhos e o olhar de alguém poderíamos intuir com quase total certeza o génio de alguém, aquilo que a define. Talvez por isso sejamos tão fiéis a essa regra da boa educação que nos ordena “olhar o outro nos olhos”; ainda que só até a um certo limite o consigamos fazer, depois como que nos queimamos nessa vertigem da alma. Olhar nos olhos de alguém é como olhar para o sol, só que em vez do sol temos o abismo das almas. Há olhares que confessam, que estão embevecidos de desejo e de paixão, mas há também olhares prenhes de cólera e olhares de suspeita. Mas há também olhares de cansaço e olhares extintos, desesperançados ou conformistas. Meço a minha beleza e o fulgor da minha personalidade pela intensidade do brilho dos meus olhos verdes ponteados de raios castanhos. Não apenas vivo encantado por estes, como julgo que eles são as chaves das minhas conquistas. E essa é também a função dos olhos e do olhar, uma função xamânica, narcisista, encantatória, central na vida dos sentidos. Quem nos livra da hegemonia do olhar? Talvez o primeiro grande insurgente contra o domínio do olhar na nossa história tenha sido édipo que acabou a furar os olhos depois de por eles ter sido atraído e traído. Édipo, o rei, que enfeitiçado pela exuberância e pretensa ubiquidade do olhar julgou tudo ver acabando a desejar que antes tivesse nascido cego.

Comentários

  1. acho o sentido da visão sobrevalorizado. aprendi a ler "Ensaio sobre o homem" de Ernst Cassirer, livro e filósofo que recomendo imenso, que há humanos que nascem cegos, surdos, sem paladar ou olfato, mas nenhum nasce sem sentido de tato, logo, deveria partir-se do tato e do que se pode fazer com ele para constituir a base de um profícuo humanismo. ps: tens olhos verdes/castanhos? a minha velha vizinha enfermeira-parteira salazarista dizia que olhos verdes significam inveja -e ela tinha-os verdes! - e eu digo que olhos castanhos significam fascismo - e eu tenho-os castanhos!

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