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A mostrar mensagens de agosto, 2024

A emancipação do pensamento religioso

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  Emancipar-se era emancipar-se do pensamento religioso com a sua pletora de preconceitos. Nada havia esperar porque nada nos tinha sido prometido. Ascendemos (ou descendemos) à Terra sem termos pedido absolutamente nada e sem que tenhamos dado qualquer autorização. A vida aparece-nos tão só, é-nos concedida como uma obra da graça; toma conta da nossa personalidade e confunde-se no nosso corpo. Há vida porque nós temos vida: é um círculo perfeito. Do mesmo modo que nenhum “ser superior” nos traçara um qualquer plano ou desígnio misterioso. Estamos tão impregnados de misticismo religioso que acreditamos dogmaticamente que a nossa vida tem um sentido. Não tem. Pior ainda, não há nenhum sentido de justiça a que nos possa agarrar a priori, como se estivesse escrito nos astros. Nada podemos esperar porque nada nos foi prometido. Por outro lado, o que seria de nós enquanto humanos, isto é, sujeitos de arte e objetos estéticos, sem a capacidade de nos autoiludirmos e de iludirmos os outro...

Terror e desejo

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Contrariamente talvez àquilo que o nosso senso comum pretende nem sempre é fácil traçarmos a linha do intolerável. Definirmos com clareza o limite a partir do qual x comportamento ou y ação passa a ser intolerável à luz, claro está, dos nossos valores. Iúri, devido à idade, à obesidade e ao seu estilo de vida (se é que assim podemos chamar ao seu completo desdém por hábitos saudáveis que promovem o bem-estar e ajudam ao prolongamento da esperança de vida), tinha perdido uma parte central da sua masculinidade. Trocando por miúdos: o vigor. Entendamo-nos: já não tinha força na verga. Em linguagem técnico-científica: já não conseguia ter uma ereção senão com o auxílio farmacológico. Apesar dos seus quarenta anos e de ter dois filhos nem por isso deixava de ter desejo sexual, mais não seja por achar que era seu dever conjugal perante a mulher e, principalmente, perante os seus amigos, e, quem sabe até, perante a sociedade. No fundo nem era tanto desejo sexual, líbido, quanto era desejo de ...

O burgesso

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O clímax deu-se quando Nádia se recusou a limpar o vómito que o seu marido, de nome Iúri, tinha deixado no tapete da sala como que em obscena forma de prenda. Ainda combalido da bebedeira colossal, com a cabeça a latejar de tal modo que parecia poder explodir a qualquer momento, o andar cambaleante, Iúri atravessou a sala para ir à cozinha beber sumo pela garrafa e trazer um pacote de batatas de fritas. De seguida voltou à sala deixando-se cair no sofá ao mesmo tempo que ligava o televisor (com o comando, claro está). Iúri tinha um ar rude que combinava perfeitamente com o seu escasso cabelo, o aspeto desmazelado de trabalhador das obras e a sua obesidade mórbida que fazia questão de ostentar e não apenas dentro de casa. Nada se deixava ler através dos seus vazios olhos castanhos. Apesar de descalço não foi de imediato que percebeu que pisava qualquer coisa estranha, de carácter peganhento. Gritou por Nádia mas ela não estava lá. Gritou pelo filho, David, mas ele também não estava lá. ...

O ridículo

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De facto sentia que estava a ser ridículo. O coração dizia-lhe que estava a ser ridículo e a razão apenas o corroborava. Mas isso não queria dizer que tinha de deixar de ser ridículo, pelo contrário, o que o seu coração e a sua razão lhe diziam é que tinha de levar essa ridiculariedade - - essa condição de ser ridículo - - até ao fim. Apaixonar-se por Medley fora sem dúvida uma das coisas mais estúpidas que lhe acontecera na vida, o que, por essa mesma razão, validava o carácter incontornavelmente ridículo de toda a situação pela qual passava. Sentia uma necessidade imperiosa de se lamentar pelas situações confrangedoras que causara ao se ter deixado apaixonar por Medley. É verdade que não tinha culpa por isso, “o coração tem razões que a razão desconhece”, mas não deixava de achar que devia pedir desculpa, não pela sua paixão, mas pelo embaraço que a sua paixão causara na outra pessoa: Medley. Como não podia simplesmente fazer reset às suas ações do passado, continuava a estar ao seu ...

Contra a sociedade heteronormativa

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A sociedade patriarcal, a sociedade em que habitamos, é de tal modo preconceituosa em relação às famílias monoparentais, aos pais e às mães solteiras, às famílias gays, aos misantropos, aos e às viúvas, aos casais hétero que não têm nem querem ter filhos, enfim, a tudo o que não se enquadra numa vida adulta consoante o modelo do pai, mãe, filho e espírito santo, que tudo o que não se encaixa é percebido como uma vida não inteiramente realizada, como um modo de vida amputado, no limite, uma anormalidade e até uma obscenidade. A própria ideia de felicidade não é concebível nesta sociedade construída à imagem do grande Pai, do “homem da família”, em que não é compreensível que alguém se possa dizer feliz sustentando sozinha o seu filho ou vivendo de forma celibatária por motivos não religiosos. Um casal gay não pode ser feliz devido à sua “condição”, logo, os seus eventuais filhos também não poderão crescer de um modo feliz: é um círculo vicioso. Quem não se casa, quem permanece solteir...

Uma escolha política

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  É claro que não tinha engolido as patranhas que a extrema-direita e a direita católica propagavam sobre a “agenda lgbt”, a “cultura woke”, a “ideologia de género”, a “doutrinação de género, o “marxismo cultural”, a colonização das faculdades de ciências sociais pela esquerda radical, o politicamente correto, o satanismo, etc., etc., mas com o tempo percebera que ser gay era também uma questão política, de orgulho e até, porque não, de escolha pessoal, uma escolha política que podia substituir-se ao desejo sexual e à necessidade de amor, a essa carência afetiva que não podia ser colmatada com o amor incestuoso dos pais ou com os amigos. Jonas escolhera ser paneleiro como parte importante do seu ativismo político contra a ideia burguesa da família tradicional. Mais ainda, contra a ideia de que a idade adulta só chega quando se constitui família (na verdade, uma certa ideia ou arquétipo de família). Quando se deixa a casa dos pais, quando se “arranja” “uma mulher”, quando se casa, q...