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Síndrome Peter Pan

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  Sentia que não crescia, ou que crescia, mas sempre com um atraso, um delay , como lhe fosse impossível vencer a distância entre a sua idade real e a sua real maturidade. Sim, do que se tratava era basicamente de expetativas. Robert sentia que não era tão adulto quanto aquilo que as pessoas esperavam de si para a idade que tinha. E compreende-se. Via os outros, os da sua geração, com a vida praticamente resolvida, um emprego sério, expetativas de vida sérias, um relacionamento sério, filhos ou filhas sérios, empréstimo de casa sério, tudo sério. E ele, ele ainda apanhava carraspanas arrastando-se pelas ruas mais sórdidas até de madrugada, levava no cu, trabalhava como caixa num supermercado, não tinha filhos, recebia o salário mínimo, não tinha expetativas nenhumas, nem sabia onde se via daqui a três meses, quanto mais daqui a três anos. Não tinha crescido; ainda idealizava o mundo de uma certa maneira e permitia-se a ter sonhos. E já se sabe como são os sonhos desviam-nos a atenç...

“Logo à noite conversamos”

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  “Logo à noite conversamos”. Era a frase que bastava, proferida com todo o dramatismo de uma ameaça, para Robert, criança, passar o dia inteiro em sobressalto, temendo a tempestade que ao final do dia, irrompendo mansamente pela porta até se abater sobre a sua pessoa numa fúria desenfreada de raios e bátegas, infligiria sobre o seu corpo terríveis penas e suplícios. Bastava que a mãe, Medley, pronunciasse esta frase-modelo para que no espírito de Robert o resto do dia ficasse irremediavelmente congelado e perdido. E Robert sabia sempre ao que a mãe se referia; a merda que tinha feito. Bastava que a mãe proferisse tal ameaça para Robert começar a punir-se, a rogar a Deus para que o castigo não lhe fosse pesado, a dar mostras de arrependimento e dar azo ao remorso – mesmo que a sua má-conduta fosse perfeitamente coincidente com as coisas de meninice. E quando a hora da mãe chegar a casa se aproximava agudizando toda a tensão e dramatismo da situação Robert ficava ainda mais parali...
Trazias aquele ar desolado Para quem a vitória traz o amargo sabor da derrota E larga as armas à soleira da porta De quem só uma ínfima parte obtém  De tudo o que lhe fora prometido E não menos do que o mundo Ou de quem regressa de uma viagem grandiosa Repleta de aventuras inusitadas e dignas de registo Descoberta de espécies jamais catalogadas E convivência com povos de línguas estranhas  Pronomes impronunciáveis Costumes excêntricos e até imorais Sem que isso te livre da sensação de desânimo E da besta mortífera da insatisfação Essa pedra no sapato macerando a carne E da qual por mais que sacudas não te livras Do chamamento encantado do desejo Parece que chegaste aos confins  E na verdade pouco ou nada avançaste Ainda que tendo percorrido a Terra inteira Lido mais livros do que muitas bibliotecas do mundo E vivido mais paixões arrebatadoras do que tantos sedutores O mundo é demasiado colossal e cruel Não para o nosso desejo e sonho que sempre são ilimitados  Mas pa...

As democracias realmente existentes

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A democracia liberal, a democracia realmente existente, é uma forma de legitimação do poder e do monopólio no uso da violência. Esta divisão do poder no seio da sociedade que se torna inadmissível para os democratas numa ditadura é tornada legítima na democracia liberal. É como se sufragássemos os nossos algozes. Não será então por acaso essa divisão entre a democracia na esfera pública (garantida, dentro de limites e contradições que são também os limites e contradições dos interesses da burguesia, pelo Estado de direito com a sua pluralidade de direitos civis) e a ditadura na esfera privada ou entre a democracia na esfera da superestrutura e a ditadura na esfera da produção. A democracia realmente existente não é um modo de vida inseparável de todas as dimensões da vida social (desde a esfera privada do lar até à economia), mas uma forma de regime que pretende legitimar uma divisão dita necessária através da instituição temporária do voto, de um sistema de freios e contrapesos ( c...
  É difícil perceber se é literatura Mas que é bonito lá isso… É na verdade um canto inominável Intraduzível em qualquer língua do mundo E no entanto sabemos muito bem que é real Que nos cola às entranhas como pastilha ao estômago Que nos despedaça e nos confronta O que é afinal percebermos aquilo que dizemos perceber Quando as palavras principiam a perder a aderência E então se tornam flutuantes Indomesticáveis e vacilantes Elas mesmas indecisas como a mão que escreve Ou a voz que soletra Estamos aqui como a poesia No limiar da linguagem Um pouco mais de insistência Isto é de insanidade E a fina parede rompe qual placenta E é então que inomináveis e indescritíveis paisagens Assomarão diante do nosso espanto Que abismos e silêncios nessa finisterra Que poemas inauditos, belos de doer, irrepresentáveis, Figurarão no limite dos poemas Vivemos no interior das palavras Como as larvas no seu casulo Quem sabe se um dia não possamos ser ta...

A louca dos gatos

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  Medley era também uma “doida dos gatos”. Alimentava-os, albergava-os, às dezenas, principalmente sofria por eles, tanto ou mais quanto sofria por Robert ou por ela mesma. Era daquelas fanáticas que tirariam o pão da boca para dar a um gato esfaimado sem pensar duas vezes. Robert não podia compreender tamanha devoção que mensalmente lhe delapidava a algibeira. Também havia cães e andorinhas que faziam ninho na primavera, mas estas não eram por Medley alimentadas, andavam à deriva, faziam o seu próprio caminho. Robert também gostava dos animais. E queria vê-los bem, e brincava sempre com eles e fazia-lhes festas. À sua maneira também os amava e os animais também gostavam muito dele pois os cães abanavam a cauda ao portão para o receber e os gatos ladeavam-no ajeitando-se de modo a obterem afagos ou nas suas pernas se esfregarem. Ronronavam também. Mas eram demasiados. E cagavam tudo lá em casa e mijavam nas esquinas das paredes, e a casa andava sempre empestada do fedor a dejet...
  A solidão mais absoluta Espera-nos no final da noite E por agora só se vê o brilho letal dos seus olhos E a brasa incandescente do seu cigarro Ao fundo no dobrar da esquina Nesta sociedade de bárbaros que tanto desprezam os seus velhos Esses mortos-vivos de peles caídas, doenças várias e aspeto grotesco Que se arrastam pelas sombras da cidade Os nossos incómodos inquilinos invisíveis E já podemos adivinhar entre a neblina as silhuetas Dos que entretanto inevitavelmente partirão Primeiro de todos os nossos pais Depois os nossos colegas de trabalho, os vizinhos, Os melhores amigos Os próprios filhos se os tivermos Banquetes do primeiro dos deuses Cronos que tudo devora Até só restarmos nós connosco mesmo Segurando talvez uma caveira Ou entabulando longas e severas discussões Com os nossos fantasmas Alimentando de larvas os remorsos Perpetuamente obcecados com a nossa galeria de arrependimentos Com sorte teremos quem nos acompanhe E faça...