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Feliz ano novo Medley

Procurando quem sabe reconciliar-se com o ano transato e principiar sem remorsos o novo ano, Robert escreveu a seguinte nota para nunca chegar a entregar à sua amada: Para este ano que agora se inicia, e ainda na ressaca do ano que entretanto findou sem sobressalto ou cerimónia, devo dizer-te, Medley, que nunca, mas nunca, deixei de gostar de ti, mesmo naqueles momentos em que fingia desprezar-te ou ser-te completamente indiferente. Sabes como eu, ou também por causa de mim, como a vida pode ser complicada quando tudo para nós devia ser perfeitamente linear: eu gosto de ti, tu gostas de mim, logo… E se procurei noutras raparigas satisfazer as minhas carências afetivas, tal não passou de uma forma de tentar fugir de ti e até de me vingar de ti. Escusado será dizer que sou um idiota, que tens o mundo inteiro aos teus pés e que devia agradecer todos os dias por me teres ternura e atenção. Não sei se algum dia resultaremos para além da amizade que pretendo conservar e aprofundar contigo, ...

Um poço de frivolidade

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  Medley era de uma superficialidade atroz, um poço de frivolidade. Dessas que não leem e vivem encantadas, para não dizer inebriadas, isto é, iludidas, pela vida falsa das celebridades. Passado todo o fascínio sexual não podia ter sobrado muito mais do que a autocensura por um dia se ter deixado apaixonar por aquela miúda. O coração até pode ter razões que a razão desconhece mas há limites, ou devia haver, para tanta estupidez. Nada o unia a Medley, nenhuma perspetiva de futuro, sonho com crianças e matrimónio civil, para que o desejo de Robert pudesse ser algo mais do que desejo sexual e, até, predatório. Tudo se resumia à questão de uma conquista que falhara; como, aliás, em tanto na sua vida. Restava a autocomiseração resultante de já não ser um jovem, nem, quanto mais, ter o mundo a seus pés. E se ao menos pudesse destacar-se pelo dinheiro que possuía ou pelo carro que exibia… Se ao menos pudesse, como se diz na linguagem juvenil dos nossos dias, ser um “sugar daddy”. A verd...

A oração da impotência

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Criara uma espécie de oração da impotência. Não acreditando em divindades ou num ser transcendente, não se deitava sem que cravasse no seu coração os milhares de crianças caídas mortas em Gaza ou as mulheres caídas em desgraça no Afeganistão sob tutela dos talibãs. Penitenciava-se procurando colocar-se na pele dos trabalhadores imigrantes e não imigrantes lentamente trucidados pelas fábricas do seu país. Procurava não alhear-se do mundo para se deitar entregando-se inteiramente a ele, a ponto do sono lhe ser inviável e mesmo intolerável e imoral. Pouco importava se o sofrimento do mundo era inevitavelmente incomportável para ele, para o seu coração débil. Por alguma razão misteriosa, obscura, religiosa, acreditava que de alguma maneira tinha de transportar consigo essa interminável e terrível chusma de vilipendiados pela injustiça terrena, mesmo se as chagas fossem impossíveis de sarar. Procurava fazer a sua vida esfregando e contorcendo a quotidianidade nessa ferida aberta. É óbvio qu...

Melancolia

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De súbito, como uma espécie de força que vem de dentro, uma sensação de impotência fraturante, avassaladora. Não sei, podia dever-se à enxurrada demencial de notícias sobre um mundo que parecia poder rebentar a qualquer momento. O genocídio em gaza, o barril de pólvora no médio oriente, o antissemitismo e o anti-islamismo, a guerra na europa entre a Ucrânia e a Rússia e que envolvia as chamadas potências mundiais que disputavam a liderança do mundo por interpostos Estados menores, os fogos apocalípticos mas também as cheias, a crise financeira e a insuperabilidade do capitalismo. Tudo isso, toda essa ameaça latente de um mundo em risco de colapso, provocava-lhe uma ansiedade tremenda e simultaneamente conformada. Uma ansiedade paradoxalmente calma, serena, ainda que profundamente inquieta. Inquieta mas não irrequieta. Algo, uma sensação difusa, que talvez nem se pudesse designar por ansiedade. Pressentia que o seu mundo, o seu modo de vida, a paz e a tranquilidade que entretanto conq...

Amar Medley

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Amando Medley, ou, o que vai dar ao mesmo, julgando amar Medley, pretendia Robert reconciliar-se com a sua juventude. Em nada mais se baseava esse pseudo-amor, essa fixação adolescente. Essa juventude perdida que julgava poder reabilitar conquistando a jovem Medley. Mas, no fundo do seu coração, sabia que se a conquistasse a consequência não seria a de recuperar a juventude mas a de envelhecer Medley – não era possível um meio caminho. E agora entristecia-o profundamente ver escapar-lhe Medley como a perfeita metáfora da juventude, da juventude que quando era jovem desprezou e que agora a todo o custo pretendia recuperar, ou, pelo menos, simular que recuperava. O rosto níveo e sorridente de Medley como um ataque mortal à sua inexorável marcha de decadência. Não podia haver resquício de romantismo no envelhecimento. E saber que o desejo de vingança era totalmente infrutífero neste caso; que namorar Medley não o iria reconciliar com a juventude que por sua e tão sua responsabilidade perd...

Amor platónico

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  O que Medley parecia exigir de Robert a este era impossível de sustentar. Uma autêntica tortura afetiva. Não era um amor clandestino à imagem dos amantes que traem os seus respetivos cônjuges. Ou um amor clandestino de quem procura esquivar-se ao implacável juízo da sociedade que tudo faria, e tudo fará, para tornar inviável uma relação que crê infame tendo em conta os seus padrões de “normalidade”, o seu modelo de preservação dos bons costumes. Um amor homossexual ou um amor entre um professor e uma aluna. Ou, sei lá, um amor entre duas famílias rivais, como os capuletos e os montéquios. O que julgava Robert que Medley lhe pedia era uma espécie retorcida, em nada sofisticada, de amor platónico. Um amor que se sustentasse não naquilo que era, ou sequer naquilo que poderia vir a ser, mas naquilo que poderia ter sido. Um amor assim que vivesse do imaginário dos amantes mas sem se concretizar em absolutamente nada. Que cada um regressasse a casa e no caloroso silêncio dos seus respe...

A emancipação do pensamento religioso

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  Emancipar-se era emancipar-se do pensamento religioso com a sua pletora de preconceitos. Nada havia esperar porque nada nos tinha sido prometido. Ascendemos (ou descendemos) à Terra sem termos pedido absolutamente nada e sem que tenhamos dado qualquer autorização. A vida aparece-nos tão só, é-nos concedida como uma obra da graça; toma conta da nossa personalidade e confunde-se no nosso corpo. Há vida porque nós temos vida: é um círculo perfeito. Do mesmo modo que nenhum “ser superior” nos traçara um qualquer plano ou desígnio misterioso. Estamos tão impregnados de misticismo religioso que acreditamos dogmaticamente que a nossa vida tem um sentido. Não tem. Pior ainda, não há nenhum sentido de justiça a que nos possa agarrar a priori, como se estivesse escrito nos astros. Nada podemos esperar porque nada nos foi prometido. Por outro lado, o que seria de nós enquanto humanos, isto é, sujeitos de arte e objetos estéticos, sem a capacidade de nos autoiludirmos e de iludirmos os outro...

Terror e desejo

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Contrariamente talvez àquilo que o nosso senso comum pretende nem sempre é fácil traçarmos a linha do intolerável. Definirmos com clareza o limite a partir do qual x comportamento ou y ação passa a ser intolerável à luz, claro está, dos nossos valores. Iúri, devido à idade, à obesidade e ao seu estilo de vida (se é que assim podemos chamar ao seu completo desdém por hábitos saudáveis que promovem o bem-estar e ajudam ao prolongamento da esperança de vida), tinha perdido uma parte central da sua masculinidade. Trocando por miúdos: o vigor. Entendamo-nos: já não tinha força na verga. Em linguagem técnico-científica: já não conseguia ter uma ereção senão com o auxílio farmacológico. Apesar dos seus quarenta anos e de ter dois filhos nem por isso deixava de ter desejo sexual, mais não seja por achar que era seu dever conjugal perante a mulher e, principalmente, perante os seus amigos, e, quem sabe até, perante a sociedade. No fundo nem era tanto desejo sexual, líbido, quanto era desejo de ...

O burgesso

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O clímax deu-se quando Nádia se recusou a limpar o vómito que o seu marido, de nome Iúri, tinha deixado no tapete da sala como que em obscena forma de prenda. Ainda combalido da bebedeira colossal, com a cabeça a latejar de tal modo que parecia poder explodir a qualquer momento, o andar cambaleante, Iúri atravessou a sala para ir à cozinha beber sumo pela garrafa e trazer um pacote de batatas de fritas. De seguida voltou à sala deixando-se cair no sofá ao mesmo tempo que ligava o televisor (com o comando, claro está). Iúri tinha um ar rude que combinava perfeitamente com o seu escasso cabelo, o aspeto desmazelado de trabalhador das obras e a sua obesidade mórbida que fazia questão de ostentar e não apenas dentro de casa. Nada se deixava ler através dos seus vazios olhos castanhos. Apesar de descalço não foi de imediato que percebeu que pisava qualquer coisa estranha, de carácter peganhento. Gritou por Nádia mas ela não estava lá. Gritou pelo filho, David, mas ele também não estava lá. ...

O ridículo

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De facto sentia que estava a ser ridículo. O coração dizia-lhe que estava a ser ridículo e a razão apenas o corroborava. Mas isso não queria dizer que tinha de deixar de ser ridículo, pelo contrário, o que o seu coração e a sua razão lhe diziam é que tinha de levar essa ridiculariedade - - essa condição de ser ridículo - - até ao fim. Apaixonar-se por Medley fora sem dúvida uma das coisas mais estúpidas que lhe acontecera na vida, o que, por essa mesma razão, validava o carácter incontornavelmente ridículo de toda a situação pela qual passava. Sentia uma necessidade imperiosa de se lamentar pelas situações confrangedoras que causara ao se ter deixado apaixonar por Medley. É verdade que não tinha culpa por isso, “o coração tem razões que a razão desconhece”, mas não deixava de achar que devia pedir desculpa, não pela sua paixão, mas pelo embaraço que a sua paixão causara na outra pessoa: Medley. Como não podia simplesmente fazer reset às suas ações do passado, continuava a estar ao seu ...

Contra a sociedade heteronormativa

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A sociedade patriarcal, a sociedade em que habitamos, é de tal modo preconceituosa em relação às famílias monoparentais, aos pais e às mães solteiras, às famílias gays, aos misantropos, aos e às viúvas, aos casais hétero que não têm nem querem ter filhos, enfim, a tudo o que não se enquadra numa vida adulta consoante o modelo do pai, mãe, filho e espírito santo, que tudo o que não se encaixa é percebido como uma vida não inteiramente realizada, como um modo de vida amputado, no limite, uma anormalidade e até uma obscenidade. A própria ideia de felicidade não é concebível nesta sociedade construída à imagem do grande Pai, do “homem da família”, em que não é compreensível que alguém se possa dizer feliz sustentando sozinha o seu filho ou vivendo de forma celibatária por motivos não religiosos. Um casal gay não pode ser feliz devido à sua “condição”, logo, os seus eventuais filhos também não poderão crescer de um modo feliz: é um círculo vicioso. Quem não se casa, quem permanece solteir...

Uma escolha política

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  É claro que não tinha engolido as patranhas que a extrema-direita e a direita católica propagavam sobre a “agenda lgbt”, a “cultura woke”, a “ideologia de género”, a “doutrinação de género, o “marxismo cultural”, a colonização das faculdades de ciências sociais pela esquerda radical, o politicamente correto, o satanismo, etc., etc., mas com o tempo percebera que ser gay era também uma questão política, de orgulho e até, porque não, de escolha pessoal, uma escolha política que podia substituir-se ao desejo sexual e à necessidade de amor, a essa carência afetiva que não podia ser colmatada com o amor incestuoso dos pais ou com os amigos. Jonas escolhera ser paneleiro como parte importante do seu ativismo político contra a ideia burguesa da família tradicional. Mais ainda, contra a ideia de que a idade adulta só chega quando se constitui família (na verdade, uma certa ideia ou arquétipo de família). Quando se deixa a casa dos pais, quando se “arranja” “uma mulher”, quando se casa, q...

Náufragos

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  O nosso ofício não era o de enterrar os mortos, livrarmo-nos dos seus corpos, nem sequer o de curar os feridos e os doentes; o nosso ofício era o de não deixar afundar os náufragos. Porque eles já eram náufragos antes mesmo de se afundarem. Mas era imprescindível não os deixar afundar ainda mais. Cuidar dos náufragos: assim se resumia o nosso trabalho. Não transportávamos os cadáveres numa barca para o reino dos mortos, nem curávamos as maleitas dos enfermos com as nossas caras de anjo e as nossas doces mãos de fada. Lançávamos precárias e finas ripas de madeira a esses náufragos da vida que se amontoavam indefinidamente formando uma montanha interminável de corpos de náufragos; corpos nus e amarelos de náufragos onde não se conseguia discernir muito bem onde terminava o braço pendente de um da mirrada perna de outro, o olho de um do umbigo de outra. Alguns náufragos viviam nas costas de outros náufragos e estes nas costas de outros e assim sucessivamente. Mas no fundo todos eram...

Um coração ardente

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  Medley estava especialmente triste, tão triste que o mundo inteiro se prostrava diante daqueles olhos azuis prestes a colapsar. Robert, meio confrangido mas com o peito cheio de comiseração, procurava as palavras certas para a confortar, mas não existiam as palavras certas perante quem se perguntava qual a razão para continuar a viver, a empurrar a vida com os fármacos e a esperança de aparecer alguém disposto a ouvi-la, pelo menos por um dia, por uma hora, por uns minutos. E sabendo da sensação de abandono a que Medley, com os seus imponentes oitenta e nove anos, se sentia votada, perguntou-lhe sobre a família. A filha estava em França fazia mais de quarenta anos; a neta vivia perto mas trabalhava numa fábrica e poucas vezes arranjava tempo, e talvez disposição, para visitar a avó; já o neto… O neto era o grande amor da sua vida. Estava por Lisboa a tentar sobreviver às rendas incomportáveis, à vida caótica dos transportes públicos, a procurar adaptar-se a uma realidade inimiga ...

Comunhão

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  Por vezes punha-se a falar e as palavras como que se desviam do seu contexto e até do seu interlocutor. E eram como palavras mágicas, palavras espectrais. Principiava a devanear. E Medley, ao telefone, escutava-o com paciência infinita, mesmo com curiosidade devota, esperando que Robert dissesse qualquer coisa de inteligente que finalmente lançasse alguma luz sobre as suas dúvidas. Dependia da luminosidade da palavra. Ou esperava dele mensagens de conforto e de assentimento, que a fizessem sentir que Robert a percebia e que aprovava os seus sentimentos e as suas conclusões. Na verdade sofria pela sua autoestima. Mas às vezes não conseguia obter do outro lado muito mais de que um curto mas suficientemente glaciar silêncio, ou um desenxabido e condescendente: hum!... pois!... claro!… E Medley lá ficava perdida no fundo do seu poço de dúvidas e de carências. Por vezes Robert interrompia os longos monólogos partilhados de Medley e esta rapidamente se predispunha a prestar-lhe tod...

Ser um outro

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  Na sua juventude viveu sempre sob o preconceito – e máxima – de que era possível, a cada dia, transformar-se, “ser um outro”. E a cada manhã onde despertasse era o mundo inteiro que despertava consigo. Um pouco como se fosse um camaleão, alternando de personalidade e de atitude consoante a sua vontade. A juventude era verdadeiramente a representação do reino da liberdade. E com o amadurecimento essa ilusão de poder ser o que quisesse, bastando para tal a capacidade de mimetizar os outros, foi-se esvanecendo, perdendo o seu fulgor. Perder a juventude significava para si não propriamente estagnar, ficar paralisado numa certa conceção sobre si mesmo, não conseguir reagir sequer à circunstância, mas já não ter capacidade – nem força -- para largar a cada vez mais pesada bagagem que carregava. Parecia que o passado, o seu legado, teimava em retornar com toda a sua violência incontrolável de cada vez que o procurava definitivamente deixar para trás. Concordava com o famoso título d...

Idade-limiar

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  Sentia-se viver numa espécie de idade-limiar. Entre a decadência que se avizinhava, que já presenciava, e a juventude que se perdia, que já tinha perdido. Então não tinha nada a perder pois estava à beira de tudo perder. Se queria dar um rumo à sua vida era agora. Um só ano mais tarde bastaria para já chegar demasiado tarde. E entretanto o tempo impunha a sua lei de aço. As rugas sinalizavam algo de irreversível, que já tinha passado para o outro lado dessa espécie de curva da oportunidade. Agora dependia menos da iniciativa do que da fortuna, do acaso. Esperava e essa espera angustiava-o, exacerbava a sua melancolia. Havia desenvolvido um profundo receio de acabar os seus dias sozinho. A solidão apavorava-o. Logo a ele, que sempre dependera da sua reclusão, e também tristeza, e se acostumara a se desenvencilhar sozinho. E agora a ideia de ficar sozinho significava para ele fracasso, incapacidade de compartilhar a sua vida íntima com alguém, de alguém querer partilhar a sua vid...

Uma comédia de enganos

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Queria a todo o custo tirá-la dos seus pensamentos. Tinha sido infetado, era assim que pensava. O seu desejo, a atração sexual, tinha infetado a sua mente e agora quase não conseguia deixar de pensar nela. Em Medley. Como essa música que não nos larga, que trauteamos instintivamente, maquinalmente, sem o intencionarmos. Não conseguia tirá-la da cabeça e, por isso, precisava de a substituir por outra coisa, por uma outra obsessão. Então, primeiro, experimentou beber até ficar de rastos. E passava dois ou três dias com a cabeça a latejar não se conseguindo concentrar no trabalho. Mas, passada a ressaca, restaurada a vitalidade do corpo, o vírus de Medley voltava a atacá-lo, por vezes ainda com maior intensidade. Enfim, não resultava. Sentia-se de algum modo doente, em vão procurava justificar toda aquela atração por alguém com quem tinha tão pouco em comum. Era verdadeiramente irrazoável e insensato. O que é certo é que por mais absurda que fosse toda a situação era bem real e estava a c...

Morte e cobardia

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  Desejava com todas as suas forças morrer, mas não tinha coragem de se matar. Aliás, se algo o distinguia era a cobardia. Uma cobardia mal resolvida que o amesquinhava pessoalmente. Facto que apenas se exacerbava diante da questão do suicídio. Então, nos períodos de maior angústia e melancolia, quando o sentimento de nojo de si mesmo e de fracasso era levado ao extremo, punha-se como que a rezar para que a morte o levasse durante o sono. Cobarde como era evidentemente clamava por uma morte suave e indolor. Pedia sem endereçar a sua prece a algo definido, a um nome ou a uma entidade (mais concreta ou difusa). Fosse Deus, a natureza, o acaso, o que quer que seja, desejava apenas que o matasse durante a noite. Estava farto de viver, de pontapear os dias para diante. A rotina autodestruía-o. O que agudizava o seu tormento era a falta de coragem. Gostava de olhar do último andar do centro comercial para baixo, como se o seduzisse a altura vertiginosa qual canto de sereia. Pensar no que...

Mãos

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As mãos, aquilo que lhe era mais próximo, começou a parecer-lhe aquilo que lhe era mais estranho, como um órgão costurado ao resto do seu corpo, um enxerto de um outro corpo. As suas mãos aparentavam-lhe francamente grotescas; grossas, desarmoniosas e desajeitadas como nunca as vira. E logo ele que cuidada tanto das suas mãos delicadas que julgava até de pianista, longas e adelgaçadas, níveas como a neve, frágeis e simultaneamente nervosas, aparentemente inquebráveis, de rosada cartilagem. E agora não conseguia lidar com as suas mãos ao ponto de as desejar amputar. Quem lhe pudesse livrar daquelas mãos de lavrador, intumescidas pela lavoura, desfiguradas pela passagem da matéria do tempo, inchadas como se padecessem de algum tumor. Aquelas mãos que batiam por dentro como um coração. Aquelas mãos acabariam por se tornar na sua perdição… Talvez as levasse a apertar o seu pescoço ou as flagelar mutuamente até nada mais delas restar do que dois tocos completamente irreconhecíveis. Quem sab...